Charles de FOUCAULD o fracasso e o deserto. Inácio José do VALE

“Charles de Foucauld é um dos melhores ícones do fracasso, porque preferiu os últimos postos aos primeiros, a vida oculta à pública, a humilhação à exaltação. Por tudo isso, Foucauld é essa imagem na qual todos os fracassados da história podem se reconhecer. E por tudo isso vejo, muitas vezes, as pessoas do mundo caminhando em uma direção e Foucauld na contrária. Mas não é o único; há outros com ele, todos solitários, todos loucos. E o primeiro dessa fila é o próprio Jesus Cristo, o mais louco de todos”, escreve Pablo d’Ors, sacerdote, escritor e conselheiro cultural do Vaticano.

Charles de Foucauld é um padre do deserto contemporâneo. Sua vida e obra, que bebem da espiritualidade de figuras da estatura de Agostinho, Bento, Francisco e Inácio, remontam aos padres do ermo que povoaram os desertos da Síria e do Egito durante os primeiros séculos do cristianismo. Para entender Foucauld em sua verdadeira dimensão, há que irmaná-lo com Dionísio, o Areopagita e Efrém da Síria, com Isaías, o Anacoreta ou Gregório de Nazianzeno. A fonte da qual beberam estes padres do deserto e que mais tarde concretizaria o movimento hesicasta foi à mesma da qual o irmão Charles também bebeu, cuja missão –essa é minha tese – não foi a de fundar algo radicalmente novo, mas a de inaugurar para o Ocidente um caminho contemplativo que havia ficado no Oriente cristão, em particular na república monástica do monte Athos. No meu modo de ver, Foucauld recebeu a colossal tarefa de recuperar essa milenar tradição de sabedoria e de atualizá-la. Por isso mesmo, sua obra não fez mais que começar.

Deserto

Foucauld se converteu na África do Norte, admirando a extraordinária religiosidade dos muçulmanos. Entendeu o deserto primeiramente em forma de metáfora, daí que buscava ser monge, inicialmente, em Ardèche, e depois em Akbès e até na Terra Santa; mas depois voltou ao deserto do Saara, o de sua juventude, a seu amado Marrocos e a sua desejada Argélia. E era ali que o destino e a providência lhe esperavam. Talvez porque poucas localidades da terra, ao estar tão desoladas, podem evocar e remeter com tanta força ao mundo interior. Foucauld é um sinal permanente de como sem deserto e purificação não há caminho espiritual.

Adoração

Em meio a esse deserto, Foucauld adora. Esta é uma palavra que hoje nos é estranha, mas adoração significa, pura e simplesmente, que o homem não se realiza pela via do ego, mas saindo do próprio micromundo e superando essa tendência tão nefasta como generalizada à apropriação e autoafirmação. Adoração quer dizer tão somente deixar de viver a partir do pequeno eu para dar passo rumo ao eu profundo, onde mora o hóspede divino. Saibam ou não, todos os que buscam o mistério por meio da meditação tem – temos – em Charles de Foucauld um mestre insigne. Amou muito porque silenciou muito. Falamos dele porque se esvaziou de si.

O amor a Jesus de Nazaré

A vida deste homem foi totalmente rara. Foucauld não se parece com ninguém. Dizia de si, segundo as épocas, que queria ser monge ou eremita, mas o certo é que viajou muitíssimo, que passou por diferentes lugares, que foi um peregrino estrutural. Na história, poucos homens como Foucauld deixaram um testemunho escrito tão eloquente de seu apaixonado amor por Jesus de Nazaré. O nome de Jesus, como um incansável mantra, acompanhou Foucauld durante quase todos os minutos de sua vida. Só há uma palavra que explica a incrível aventura humana de Foucauld: Jesus.

Fracasso

Ao término de sua vida, pouco antes de ser assassinado, Foucauld se encontra com as mãos felizmente vazias. Seria possível dizer que ao longo de sua existência colheu um fracasso após outro: foi o último de sua promoção no Exército, do qual, repetidas vezes, esteve a ponto de ser expulso por seus escândalos e indisciplina. Fracassou também como patriota e abortou sua vocação de explorador, desperdiçando uma brilhante carreira profissional. Monge fracassado da trapa de Heikh. Fracassado também em seu quimérico projeto de adquirir o monte das Bem-aventuranças para se instalar ali como eremita. Nenhuma só conversão após anos de apostolado. Nenhum só seguidor após ter redigido tantos esboços de uma regra para seus projetados eremitas. Ignorado pela administração civil e pela eclesiástica, nenhum escravo redimido, nenhum companheiro para sua missão…

Foucauld é um dos melhores ícones do fracasso, porque preferiu os últimos postos aos primeiros, a vida oculta à pública, a humilhação à exaltação. Por tudo isso, Foucauld é essa imagem na qual todos os fracassados da história podem se reconhecer. E por tudo isso vejo, muitas vezes, as pessoas do mundo caminhando em uma direção e Foucauld na contrária. Mas não é o único; há outros com ele, todos solitários, todos loucos. E o primeiro dessa fila é o próprio Jesus Cristo, o mais louco de todos.

“Mas é somente no fracasso que se pode pensar a imitação de Cristo, do messias que morreu na cruz como um malfeitor”, afirma a historiadora italiana Lucetta Scaraffia, professora da Universidade de Roma “La Sapienza”.

Fracasso

Nem todo fracasso é um fiasco.
Nem toda fraqueza é moleza.
Nem toda derrota é bancarrota.
Nem toda desilusão é perdição.
Nem toda traição é escuridão.
Nem toda solidão é em vão.
Nem toda humilhação é exclusão.
Nem toda intuição é sem conclusão.
Nem toda intensidade é o tempo da vontade de Deus.

(Frei Inácio José do Vale)

A existência tem enigmas e a vida de fé mistérios. Vai além da razão humana os desígnios de Deus. O ser humano propõe e Deus dispõe. Nem todos os projetos são realizáveis, no entanto, fica algo de lição. No plano da imanência muitas coisas podem ser feitas, já no plano transcendental já estão feitas. A concretização dos fatos é apenas a permissividade de Deus. O mais importante no ser humano é sonhar, buscar, sair de si, aventurar, fazer as coisas com amor e paixão e ter consciência que tudo pode acontecer… Primeiro o reino de Deus, amar o próximo e aguardar os encantos de Deus. Em tudo isso Charles de Foucauld foi discípulo exemplar.

Frei Inácio José do Vale
Professor e conferencista
Sociólogo em Ciência da Religião
Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas
Fraternidade do Bem-aventurado Charles de Foucauld
E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com

Fontes:
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/563037-charles-de-foucauld-as-sete-palavras-para-hoje-de-um-padre-do-deserto
Foucauld, Charles de. Meditações sobre o evangelho. Lisboa: círculo do humanismo cristão, 1962.
Annie de Jésus. Charles de Foucauld: nos passos de Jesus de Nazaré. Vargem Grande Paulista, SP: Editora Cidade Nova, 2004.

PDF: Charles de Foucauld o fracasso e o deserto

Anunciar o Evangelho pelo Testemunho. Inácio José do VALE

Somente uma Igreja que renuncia ao mundo anuncia bem o Senhor”. “Somente uma Igreja desvinculada do poder e do dinheiro, livre de triunfalismos e clericalismos testemunha de forma crível que Cristo liberta o ser humano”, disse o Papa Francisco. (05/05/2018, Esplanada de Tor Vergata, em Roma).

O bom testemunho é o perfume de santidade eis aí o comportamento fundamental para anunciar o Santo Evangelho de Jesus Cristo. O exemplo configurado na caridade e na justiça de Deus foi e sempre será a prática colossal de evangelização.

A prática apostólica é o protótipo ínclito de proclamar a Boa Nova do Reino de Deus: “Não temos prata e nem ouro”, (At 3, 6), no entanto: “Eles tinham santidade e ousadia de pregar a palavra do Senhor Deus” (At 4,31). Daí os sinais, prodígios, maravilhas e conversão de almas para glória de Deus e crescimento da Igreja de Cristo (At 2, 41-47; 4, 4).

Aqueles que anunciam verdadeiramente o Evangelho são mais conhecidos pelo exemplo de vida do que pela pregação, escritos, cargos, formação acadêmica, apresentações espetaculares e paramentos caríssimos. O arauto autêntico da Boa Noticia de Cristo é tentado a se corromper, recebe propostas indecentes dos seguimentos sociais, principalmente da mídia, todavia, seguindo o modelo apostólico rejeita e responde: “O dom de Deus não se compra com dinheiro” (At 8,20). Os corruptos e os demônios conhecem os honestos e dignos pregadores da Palavra de Deus (Cf. At 8,18-24; 19, 14-20).

Vivemos a era das espetacularizações: a grandiosidade da corrupção, os megatemplos, shows religiosos, líderes religiosos milionários, culto à personalidade, transformistas venerados, a idolatria personificada nas redes sociais, o modismo rebeldes conectados aos vícios e a profanação do sagrado via a “arte” financiada pelo ídolo do capitalismo.

A sedução mundana é monumental, as propostas são fartas e os desafios são gigantescos. O mundanismo é um convite à arena do prazer. A falta de equilíbrio, maturidade e integridade na personalidade humana podem ser ocupadas pelo hedonismo e narcisismo levando a pessoa a soberba do triunfalismo e no campo religioso o clericalismo arrivista. Em ambos não há espaço para caridade, a paz, amizade, justiça e santidade (Ler 1 Ts 4, 3; Hb 12, 14).

Muitos querem contemplar no evangelizador a imagem de Cristo, se ele anuncia a mensagem do seu Senhor tem que parecer com Ele, tem que ser credível pela a semelhança do seu Divino Mestre! Principalmente os jovens que amam de fato e de verdade o religioso que não apareça e sim faça aparecer Jesus de Nazaré. Os jovens no sentido de espiritualidade não querem ostentação, espetacularização e sim a simplicidade do Evangelho e o testemunho de santidade de quem prega e vive a Boa Nova. Há multidões de jovens com fome e sede de Deus e que estão procurando configurar suas vidas em Cristo via testemunhas que os ajudem centralizar seus ideais no amor acolhedor, na dignidade e na esperança de vida eterna. E é o Espírito Santo que derrama em nossos corações o amor acolhedor de Deus (Cf. Rm 5,5). Daí a busca profunda da Pessoa do Divino Espírito Santo e seus carismas (1Cor 12, 1- 13).

Documento de Aparecida

E a missão é possível quando se é conduzido pelo Espírito Santo como foi conduzido Jesus (149).

A Diocese “é o primeiro espaço da comunhão e da missão”, e o bispo “deve estimular e conduzir uma ação pastoral orgânica renovada e vigorosa, de maneira que a variedade de carismas, ministérios, serviços e organizações se orientem no mesmo projeto missionário para comunicar vida” (169).

O pároco “deve ser ardoroso missionário que vive o constante desejo de buscar os afastados e não se contenta com a simples administração” (201).

Para cumprir sua missão, os leigos necessitam de sólida formação doutrinal, pastoral, espiritual e adequado acompanhamento (212). A Igreja em nosso Continente quer “colocar-se em estado de missão” (213).

Evangelizar para encantar e reencantar cada dia, renovando e reavivando só pelo testemunho fundamentado na entrega total ao Espírito Santo (Ef 5,18). Os não crentes e os afastados poderão crê e retornarão a comunhão da Igreja pelo glorioso testemunho da graça salvadora de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Frei Inácio José do Vale
Professor e Conferencista
Sociólogo em Ciência da Religião
Fraternidade do Bem-aventurado Charles de Foucauld

PDF: Anunciar o Evangelho Pelo Testemunho

O nosso clamor contra o genocídio dos nossos povos. Conselho Indigenista Missionário. Brasil.

Depois de 518 anos, as hordas do esbulho, da acumulação e do lucro continuam massacrando e exterminando os nossos povos para tomar conta de nossas terras e territórios, dos bens comuns e de todas as formas de vida que, milenarmente, soubemos proteger e preservar.

Completados 30 anos da Constituição Federal de 1988, que consagrou a natureza pluriétnica do Estado brasileiro, os povos indígenas do Brasil vivem o cenário mais grave de ataques aos seus direitos desde a redemocratização do país. Condenamos veementemente a falência da política indigenista, efetivada mediante o desmonte deliberado e a instrumentalização política das instituições e das ações que o Poder Público tem o dever de garantir.

O direito originário sobre nossas terras, assegurado como cláusula pétrea pelo Artigo 231 da Constituição, vem sendo sistematicamente violado pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, não apenas com a completa paralisação das demarcações das terras indígenas, mas também mediante a revisão e a anulação dos processos de reconhecimento dos nossos direitos territoriais.

Ao negociar nossos direitos com bancadas parlamentares anti-indígenas, especialmente a ruralista, o governo ilegítimo de Michel Temer publicou o Parecer AGU nº 001/2017, que, de forma inconstitucional e contrária à jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), tenta impor a tese do marco temporal, uma das mais graves violações contra os nossos povos. Sua condenável utilização tem servido para o retardamento dos já morosos processos de demarcação e, em determinados casos, para a anulação de demarcações já efetivadas e consolidadas. A tese desconsidera o histórico de expropriação territorial e de violência a que muitos dos nossos povos foram submetidos, durante séculos, inclusive na ditadura militar, como denuncia o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

No âmbito do Poder Judiciário, tramitam milhares de ações propostas pelos nossos inimigos, estimuladas nos últimos tempos pela tese do marco temporal, e que tem o objetivo de suprimir o nosso direito territorial sem que possamos exercer o direito de acesso à justiça para a defesa dos nossos direitos.

Não aceitamos o loteamento político da FUNAI, especialmente para atender interesses da bancada ruralista e demais setores anti-indígenas, como as últimas nomeações de presidentes, incluindo a do Sr. Wallace Moreira Bastos, cujo currículo denota completa ignorância das questões indígenas. Igualmente, condenamos o intencional desmantelamento do órgão indigenista, com reduções drásticas de orçamento, que inviabiliza o cumprimento das suas atribuições legais, especialmente no que toca a demarcações, fiscalização, licenciamento ambiental e proteção de povos isolados e de recente contato. Na mesma toada, foram extintos espaços importantes de participação e controle social, principalmente o Conselho Nacional da Política Indigenista (CNPI).

Não bastasse isso, denunciamos o fisiologismo entre o governo federal e o Congresso Nacional e o desmonte deliberado do Estado brasileiro provocado pela Emenda Constitucional 95, que congela o orçamento por 20 anos. Destacamos a absoluta falta de implementação da PNGATI nos territórios, a extinção do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e da Assistência Técnica Rural (Ater Indígena). Tais omissões impedem as imprescindíveis ações de etnodesenvolvimento, gestão ambiental e proteção das terras indígenas, resultando na intensificação da presença de atividades ilegais e danosas, como garimpo, exploração madeireira, arrendamento, loteamento, comercialização e apossamento de terras já demarcadas por não indígenas; tráfico de conhecimentos tradicionais e outras ameaças.

Denunciamos, ainda, a situação de calamidade da saúde indígena, fruto da precariedade do atendimento básico, do desrespeito às particularidades de cada povo indígena, da desvalorização da medicina tradicional, da falta de acesso a medicamentos e ao transporte para a realização de tratamentos, situação agravada pela utilização político-partidária da política e das instâncias responsáveis pela gestão da saúde indígena. Da mesma forma, denunciamos o descaso com a educação escolar indígena, manifesta na falta de respeito ao projeto pedagógico de cada povo, no não reconhecimento da categoria de professores indígenas, na falta de apoio à formação continuada desses professores, incluindo as licenciaturas interculturais, e na má qualidade das estruturas das escolas, ou na falta destas nas comunidades, bem como a falta de material didático compatível com as especificidades.

A atual conjuntura ainda impõe sérios riscos de retrocesso na legislação de proteção aos direitos dos povos indígenas. Para além do sempre presente fantasma da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, os esforços da bancada ruralista voltam-se no momento para uma tentativa de legalizar o arrendamento das terras indígenas, afrontando o direito constitucional ao usufruto exclusivo dos povos indígenas sobre suas terras. Recorrem para isso a estratégias de desinformação e tentativas de divisão de povos e comunidades. Também está nessa agenda uma série de propostas de flexibilização do licenciamento ambiental voltadas a liberar empreendimentos em nossos territórios, como o PLS 654/2015, o PLS 168/2018 (ambos no Senado) e o Projeto de Lei (PL) 3729/2004 (Câmara dos Deputados). Não admitiremos a desconsideração de povos indígenas isolados, a restrição de avaliação de impactos ambientais apenas para terras indígenas homologadas, o caráter não vinculante da manifestação da FUNAI e a concessão automática de licençaquando superado o prazo para manifestação do órgão indigenista, entre outras.

É esse contexto de hegemonia dos ruralistas e outros inimigos dos povos indígenas, em todos os poderes do Estado, que provoca o acirramento sem precedentes da violência contra os nossos povos e a criminalização das nossas lideranças que estão na frente das lutas de defesa dos nossos direitos, situação agravada pelo desmonte das instituições que tem o dever constitucional de proteger e promover os direitos indígenas.

Diante desse quadro sombrio de extermínio dos nossos direitos, nós, cerca de 3.500 lideranças indígenas, representantes dos mais de 305 povos indígenas de todas as regiões do país, reunidos no Acampamento Terra Livre 2018, exigimos das instâncias de poder do Estado o atendimento das seguintes reivindicações:

  1. Revogação imediata do Parecer 001/2017 da AGU / Temer;
  2. Revogação imediata da Emenda Constitucional 95, que congela para os próximos 20 anos o orçamento público;
  3. Realização urgente de operações para a retirada de invasores de terras indígenas já demarcadas e a efetiva proteção das mesmas;
  4. Demarcação e proteção de todas as terras indígenas, com especial atenção às terras dos povos isolados e de recente contato, assegurando o fortalecimento institucional da FUNAI;
  5. Dotação orçamentária, com recursos públicos, para a implementação da PNGATI e outros programas sociais voltados a garantir a soberania alimentar, a sustentabilidade econômica e o bem viver dos nossos povos e comunidades;
  6. Garantia da continuidade do atendimento básico à saúde dos nossos povos por meio da SESAI, considerando o controle social efetivo e autônomo por parte dos nossos povos;
  7. Efetivação da política de educação escolar indígena diferenciada e com qualidade, assegurando a implementação das 25 propostas da segunda conferência nacional e dos territórios etnoeducacionais;
  8. Arquivamento de todas as iniciativas legislativas que atentam contra os nossos povos e territórios;
  9. Garantia por parte das distintas instâncias do poder Judiciário da defesa dos direitos fundamentais dos nossos povos assegurados pela Constituição Federal e os tratados internacionais assinados pelo Brasil;
  10. Fim da violência, da criminalização e discriminação contra os nossos povos e lideranças, assegurando a punição dos responsáveis por essas práticas, a reparação dos danos causados inclusive por agentes do Estado e comprometimento das instancias de governo (Ministério de Direitos Humanos, Ministério da Justiça, Defensoria Pública) na proteção das nossas vidas;
  11. Aplicabilidade dos tratados internacionais assinados pelo Brasil, de modo especial a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) incorporada ao arcabouço jurídico do país e que estabelece o direito dos povos indígenas à consulta livre, prévia e informada sobre quaisquer medidas administrativas ou legislativas que os afetem.

Brasília – DF, 26 de abril de 2018

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil –APIB

Mobilização Nacional Indígena

Documento original: https://www.cimi.org.br/2018/04/documento-final-do-atl-2018-o-nosso-clamor-contra-o-genocidio-dos-nossos-povos/

Charles de FOUCAULD, O último lugar. Inácio José do VALE

Humildade de Jesus: imitemo-Lo. Busquemos o último lugar… fazermo-nos pequenos… pelo exemplo, a humildade, o abaixamento, a vida escondida…“.

Charles de Foucauld
Meditações sobre o Evangelho (1)

Na espiritualidade de Nazaré do Bem-aventurado Charles de Foucauld temos a consciência de buscar o último lugar, a vida escondida, de fazermo-nos pequenos e viver na ardente busca do Absoluto.

Charles de Foucauld nos ensina para caminhada da fé um protótipo: Jesus de Nazaré é o nosso modelo único. Escreve: “A hora mais bem empregada de nossa vida é a em que mais amamos Jesus… Lembrar só de Jesus, pensar somente em Jesus, apreciando como lucro toda perda pela qual obtemos maior lugar em nosso pensamento e conhecimento para Jesus, em comparação com quem tudo é nada” (2).

Na espiritualidade foucauldiana não há espaço para ostentação. É abominável a espetacularização, o estrelismo e o culto a personalidade. O desequilíbrio causado pelo narcisismo, hedonismo e principalmente a psicastenia leva o sujeito a marginalizar, perseguir e não ajudar o próximo.

Vivemos a era do hipercarismátismo, do superpentecostalismo, da megamissa show e da idolatria de imagem. Tudo isso para enfatizar, emocionalizar, manipular, alienar e condicionar ao experimentalismo e ao subjetivismo da fé sem conhecimento do Evangelho, sem prática da vivência comunitária e da vida social solidária.

Na verdade, o interesse é a construção do império religioso, do empreendimento financeiro particular, da defesa do cargo hierárquico, do artístico que usa o fenômeno religioso como fonte de negócios e o povo pobre sofredor, doente, abandonado, com forte carência afetiva fica como massa de manobra.

Vivemos a onda do Facebook. Tudo se faz para mostrar, aparecer e receber aplausos e adoração. Postar o ridículo é show. É um festival de boçalidade e de aparição avacalhada.

A idolatria da imagem em prol da fama, do esnobe, fashion, do showbizz e reality show é buscar o culto a personalidade e a ganância pelo dinheiro. Essa gente, segundo São João Apóstolo: “Tem fama de esta vivo, mas está morto” (Ap 3,1). “É infeliz, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3,17).

Esse tipo de pessoa procura ser o centro das atenções. Articula a centralidade das ideologias, dos seus interesses egocêntricos. Tais pessoas são portadoras de desequilíbrios mentais e são detentoras da belial perversidade. Essa gente quando é confrontada e contrariada, torna-se perseguidora, vingativa e criminosa.

Há um grande investimento em comunicação e no marketing para ser visto, lembrado, comentado e vender o produto. O culto mercadológico vive da liturgia da visibilidade, da imagem e da moda. O que não é propagado, mostrado não é vendido e o líder religioso que não é rico, famoso não é convidado em nem requisitado para os eventos espetaculares. A onda fitness está em corpos cobertos com paramentos luxuosos.

Os nossos altares estão cheios de deuses e no ambão é proclamada uma péssima notícia, ou seja, propaganda enganosa da Palavra de Deus. O ser humano pela ânsia, ambição é seduzido em ser ídolo, ser famoso, celebridade, ter sucesso, poder e adoradores. Daí buscar sempre o primeiro lugar, ser grande e ser cercado pelos holofotes. A falta de autoconhecimento leva muita gente a auto-enganação. O orgulho, o egoísmo e a vaidade exagerada realizam a terrível desconstrução da vivência evangélica. Disse Jesus: “Sede prudente como as serpentes e sem malícia como as pombas” (Mt 10,16). E afirmou: “Que ninguém vos engane” (Mt 24,4).

Dizia Charles de Foucauld: “Voltemos ao Evangelho: se nós não vivermos o Evangelho, Jesus não vive em nós”. E de forma abissal exortou: “Ter verdadeiramente a fé, a fé que inspira todas as ações, essa fé no sobrenatural que despoja o mundo de sua máscara e mostra Deus em todas as coisas…” (Anotações espirituais) (3).

A Espiritualidade de Nazaré nos ensina caminhar na Boa Nova de Jesus Cristo e sermos evangelhos autênticos na instrumentalização do amor e da graça de Deus em prol da libertação daqueles que estão no caminho sedutor da ostentação, da idolatria e da glória mundana.

Frei Inácio José do Vale
Professor e conferencista
Sociólogo em Ciência da Religião
Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas
E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com

Notas:
(1) Foucauld, Charles de. Meditações sobre o evangelho. Tradução de Nuno de Bragança. Lisboa: Círculo do Humanismo Cristão, 1962, pp. 112 e 113.
(2) Foucauld, Charles de. Cartas e anotações. Tradução das monjas dominicanas de São Paulo. São Paulo: Paulinas, 1970, pp. 164 e 165.
(3) Um pensamento para cada dia. Charles de Foucauld; seleção de textos. Patrice Mahieu, Tradução de José Joaquim Sobral. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2012, p. 62.

PDF: O ÚLTIMO LUGAR

Carlos Roberto dos SANTOS: Iluminação bíblica e magisterial do Papa Francisco sobre a questão ecológica

Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras’ […] Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos” (cfr. LS n. 1-2).

Apesar da preocupação com o destino universal dos bens e da preocupação com as profundas e rápidas mudanças que a inteligência e as atividades humanas estavam provocando no mundo, e que se estendiam progressivamente ao universo inteiro, podemos perceber que os padres conciliares ainda não perceberam a problemática da ecologia. Vários documentos retomam este princípio do destino universal dos bens:

Deus destinou a terra, com tudo que ela contém, para o uso de todos os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, sob as regras da justiça, inseparável da caridade” (GS n. 69).

Mas já ai, colocavam bases para um futuro “desenvolvimento sustentável” onde os mais ricos têm a obrigação moral de socorrer os mais pobres, não somente com o que lhes é supérfluo. Esta perspectiva provocaria a necessidade de “prever o futuro, estabelecendo justo equilíbrio entre as necessidades atuais de consumo, individual e coletivo, e as exigências de inversão de bens para as gerações futuras” (GS n. 70).

Leia o documento completo em PDF: Iluminação bíblica e magisterial do Papa Francisco